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Dados reunidos pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira, indicam uma tendência nacional de redução de ocorrências de furtos e roubos de celular, que caíram 7,7% entre 2024 e 2025. Rio de Janeiro e Paraíba aparecem como exceções ao registrarem aumento nos casos, indo na direção contrária do restante do país.

Em 2025, foram 792.284 casos registrados contra 855.113 no ano anterior. Segundo dados do anuário, o pico se deu em 2019, quando foram contabilizados 1.053.433 episódios de furtos e roubos de celulares. Veja abaixo:

As reduções mais expressivas nos casos de furtos e roubos aconteceram no Rio Grande do Norte (-22,1%), Mato Grosso (-20,6%), Goiás (-19,6%), Amazonas (-19,2%) e Espírito Santo (-18,2%) segundo o estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Já o Rio de Janeiro e Paraíba contabilizaram, respectivamente, crescimento de 22,7% e 21,1% na subtração dos aparelhos eletrônicos.

Os dados revelam também uma concentração das ocorrências em grandes centros urbanos, sobretudo em capitais e regiões metropolitanas. O levantamento do anuário mostra que, dos 20 municípios com as maiores taxas de roubo e furto de celular por 100 mil habitantes, 14 são capitais estaduais. O ranking é liderado por São Luís, seguido de Belém, São Paulo, Salvador e Lauro de Freitas (BA). Veja abaixo:

 

  1. São Luís (MA) – 1517,0
  2. Belém (PA) – 1487,0
  3. São Paulo (SP) – 1390,5
  4. Salvador (BA) – 1195,0
  5. Lauro de Freitas (BA) – 1144,5
  6. Porto Velho (RO) – 1123,2
  7. Manaus (AM) – 1107,1
  8. Olinda (PE) – 1060,3
  9. Ananindeua (PA) – 979,5
  10. Teresina (PI) – 975,3
  11. Recife (PE) – 965,3
  12. Cariacica (ES) – 932,2
  13. Vitória (ES) – 930,8
  14. Marituba (PA) – 863,2
  15. Macapá (AP) – 831,6
  16. Belo Horizonte (MG) – 831,3
  17. Natal (RN) – 806,8
  18. Itapecerica da Serra (SP) – 801,2
  19. Fortaleza (CE) – 796,0
  20. Rio de Janeiro (RJ) – 793,7

 

São Paulo lidera em números absolutos

Apesar de ocupar a terceira posição no ranking, São Paulo detém os maiores números absolutos de subtrações dos aparelhos eletrônicos, concentrando 20% de todos os casos do país. O anuário descreve a capital paulista como "principal polo nacional de roubos e furtos", exercendo "papel central na dinâmica nacional desse mercado ilícito". Segundo o estudo, o roubo e furto de celulares integram uma cadeia global criminosa, com muitos aparelhos viajando até a China, onde caem em mercados de bens roubados.

O Fórum chama a atenção também para a concentração regional do ranking, com oito municípios da Região Nordeste figurando na lista. Outros seis estão no Norte e o restante no Sudeste. Não há representantes do Centro-Oeste.

Apesar da tendência nacional de queda, os pesquisadores apontam para a possível subnotificação das ocorrências. Uma pesquisa anterior, também produzida pelo FBSP, mostrou que 8,3% da população com 16 anos ou mais declarou ter sido vítima de roubo ou furto de celular. A porcentagem equivale a 13,9 milhões de brasileiros. "Se todas estas pessoas tivessem procurado as autoridades para registrar terem sido vítimas de tais crimes, o número de Boletins de Ocorrência seria muito maior", resume o FBSP.

Ao desagregar os dados, os pesquisadores encontraram duas tendências distintas. Enquanto os roubos tiveram uma redução de 18,6%, os furtos mantiveram-se estáveis, com uma variação positiva de 0,9%. "Atualmente 6 em cada 10 celulares subtraídos hoje no Brasil são fruto de furtos e 4 em cada 10 são derivados de roubos", resume o anuário.

O estudo também traz dados sobre os locais e horários mais comuns para roubos e furtos de celulares. Vias públicas correspondem a 77,2% das ocorrências de roubo, enquanto 49,3% dos furtos acontecem nas ruas, 15,2% em comércios e 6,1% no transporte. Em relação ao horário, os casos de roubo têm dois picos ao longo de um dia, sendo o primeiro entre 5h e 6h da manhã e o segundo das 18h às 23h. Furtos, por outro lado, são mais comuns entre 10h e 12h e 17h e 20h.

 

Hipóteses para queda nos casos de roubos

A pesquisa levanta hipóteses para a redução dos roubos. Uma delas está atrelada à possível redução do retorno econômico desse tipo de crime em decorrência do programa Celular Seguro, lançado pelo governo federal em dezembro de 2023 e uma das apostas do governo Lula para angariar votos na área da segurança pública.

Segundo o anuário, em casos de roubos, é comum que o criminoso obrigue a vítima a entregar o aparelho desbloqueado ou informar suas senhas. A possibilidade de bloqueio à distância do aparelho, facilitada pelo Celular Seguro, cria um novo obstáculo ao dificultar o acesso posterior às contas do usuário, desincentivando a prática criminosa

Dentro dessa hipótese, o Celular Seguro, por outro lado, teria menos efeito sobre as ocorrências de furto, já que quem comete esse tipo de crime tende a não ter a expectativa de acessar aplicativos e dados. Em geral, o valor do aparelho em casos de furto se limita à venda de peças ou revenda em mercados informais.

Outra hipótese é referente ao risco envolvido na prática criminosa, já que, por definição, o roubo exige o uso de violência ou ameaça contra a vítima. Assim, uma possível explicação para a redução seria que, entre 2024 e 2025, os riscos envolvidos no roubo de smartphones aumentaram.

"Esse aumento pode estar relacionado à expansão das câmeras de monitoramento ao maior foco das polícias no combate a estes crimes e à adoção, pela população, de comportamentos que dificultam abordagens violentas em espaços públicos", resume o anuário.

Uma terceira hipótese levantada é uma queda no valor de revenda dos celulares, conforme os aparelhos passam a contar com mais sistemas e mecanismos de segurança, incluindo aqueles instalados pelos próprios fabricantes. Citado pelos pesquisadores, um estudo feito na Austrália aponta que o valor de revenda de eletrônicos roubados caiu de 33% em 2002 para 11% em 2018.

Os pesquisadores do FSPB também detectaram um crescimento de 3,3% nos registros de receptação, que subiu de 70.207 para 72.789, entre 2024 e 2025. Treze estados contabilizaram aumento desse tipo de crime, com os maiores números vindo do Amazonas (140,2%), Paraná (48,3%) e Alagoas (43,5%). Em 11 das 25 unidades da federação onde roubos e furtos caíram, os registros de receptação cresceram.

O anuário aponta uma possível relação entre os crimes. Segundo essa hipótese, conforme a receptação fica mais custosa, com maiores chances de ser detectada, o incentivo para o cometimento de roubo ou furto cai, diminuindo a ocorrência de novos casos.

 

Por Paulo Assad / O GLOBO

 

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