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Mosquitos da dengue avançam pelo planeta e aumentam casos da doença

Ameaças à saúde pública conhecidas no Brasil e em outras zonas tropicais por disseminarem vírus como dengue, zika e chikungunya, os mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus (ou mosquito tigre asiático) estão ampliando suas áreas de atuação no planeta, em regiões onde não era comum encontrá-los.

Recentemente, o escritório europeu da Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que a presença do mosquito tigre avançou 55% entre os países do bloco nos últimos sete anos, chegando a 31 nações neste ano. Em nota, a organização apontou que “isso torna a vigilância, a detecção precoce, a prevenção de picadas e o controle de vetores cada vez mais importantes, especialmente durante certos meses da primavera e do verão”.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, os casos de dengue efetivamente já chegaram. Na Califórnia, por exemplo, o programa “Debug”, ligado ao Google, anunciou, há três meses, o interesse em liberar 32 milhões de Aedes aegypti não-transmissores, conforme a imprensa internacional. Esses mosquitos carregam a bactéria Wolbachia, que impede a replicação dos vírus. No Brasil, a estratégia já é usada e, em Niterói, onde há 100% de cobertura, a redução de casos de dengue foi de 90%.

De volta aos EUA, a região mais afetada é a Flórida, com 485 dos 2.145 casos confirmados neste ano, de acordo com o Centro de Controle de Emergências (CDC). O condado onde está localizada a cidade de Orlando emitiu pela primeira vez em 15 anos um alerta relacionado à doenças disseminadas por mosquitos.

— Essas mudanças ocorrem devido ao aquecimento global. Ouviu-se relatos até de casos de Aedes aegypti na região metropolitana de Londres. Esses mosquitos estão se adaptando a essas condições climáticas, que têm se tornado melhores para eles — diz Luciano Moreira, pesquisador em saúde pública da Fiocruz e consultor do World Mosquito Program, líder do método Wolbachia no Brasil. —Antes, tínhamos transições do ano mais destacadas, só que com o aquecimento global há mais períodos de calor disponíveis para o mosquito. Esses vetores vão se adaptar, é apenas uma questão de alguns anos.

Os especialistas explicam que a mudança de padrão climático é a principal razão para o avanço dos mosquitos onde sua presença não era um problema. Eles, inclusive, dizem que a última temporada do verão europeu é um tipo de fenômeno que causa preocupação. Para se ter uma ideia, o observatório climático da União Europeia, chamado Copernicus, apontou que 52% do território esteve exposto a estresse térmico “muito forte”.

 

Sempre avançando

Não se trata da primeira vez que o Aedes aegypti amplia sua área de influência. No próprio Brasil, a dengue foi capaz de expandir fronteiras nos últimos anos. Historicamente, os estados da região Sul, como o Rio Grande do Sul, apresentavam certa resistência aos surtos, justamente por conta do padrão climático mais frio. Isso tem mudado. De acordo com o painel de controle de casos do estado, a região passou de 80 casos confirmados em 2018, para 2,4 mil neste ano. Os anos de 2024 (o pior da história para a dengue no Brasil) e 2025 tiveram ainda mais casos do que a sazonalidade de 2026. Ou seja, não se trata de um ano“atípico”.

— Corremos o risco de ter surtos cada vez maiores. Como ocorreu com a Argentina. Antes eram vistos casos só no Norte, mas agora temos registros em Buenos Aires. O Brasil inteiro agora tem dengue, antes não era assim — diz Julio Croda, infectologista da Fiocruz e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).

O aparecimento do vetor em algumas regiões, não quer dizer necessariamente que aquele local terá alta imediata da transmissão de dengue — e outras doenças que tem esse inseto como disseminador. A própria OMS faz essa ressalva sobre a detecção do mosquito tigre. A chegada desses insetos, porém, promove certa “pressão” nas localidades.

“A transmissão depende de uma combinação de fatores, incluindo a introdução do vírus na área, a existência de condições ambientais que permitam a replicação e a persistência tanto do mosquito quanto do vírus, e a possibilidade de estabelecimento da transmissão local”, diz o texto.

A dengue, porém, não é uma realidade desconhecida do bloco. De acordo com levantamentos do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC), a Europa tem transmissão local (ou seja, que não está relacionada a deslocamentos ou viagens) em países como Croácia, França, Itália, Espanha e Portugal.

— É importante que se faça um programa de combate ao mosquito como se faz nos trópicos — diz Cláudio Maierovitch, médico sanitarista da Fiocruz em Brasília e ex-presidente da Anvisa. — Antes, acreditávamos em barreiras geográficas para o mosquito. Mas agora esses limites foram deslocados. As regiões que restaram estão cada vez mais pressionadas.

 

Serviços de saúde

Uma preocupação com a expansão territorial do mosquito recai justamente sobre como os serviços de saúde vão receber os pacientes infectados. Há, por exemplo, o risco de que o diagnóstico não seja feito de maneira apropriada, o que abre a dura possibilidade de piora de alguns casos.

— Um motivo de preocupação é que o serviço de saúde pode não ter experiência com essas doenças. Aqui no Brasil, isso acontece com a malária. É uma doença da região amazônica, e lá é raro morrer por isso, pois se identifica rapidamente e se trata. Fora dessa região, a doença acaba se tornando mais letal — diz Maierovitch.

Julio Croda lembra ainda que em regiões nas quais a dengue nunca ocorreu há um volume grande de pessoas suscetíveis à infecção, pois não obtiveram a imunidade “herdada” após o contato com a doença:

— À medida que essa transmissão avançar, é possível que o número de pessoas afetadas seja razoável. Há ainda o risco da chegada na população com mais idade, com comorbidades,o que pode levar ao desenvolvimento de casos graves.

 

Por Mariana Rosário — São Paulo / O GLOBO

 

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