
O diabetes é uma das doenças crônicas mais comuns do Brasil. O país ocupa o 6º lugar no mundo entre os países a ter mais pessoas com a diabetes no geral, enquanto fica em 3º lugar em relação a diabetes Tipo 1. Manter o tratamento de forma contínua ainda é um desafio para milhares de pessoas, especialmente diante de barreiras no acesso ao cuidado e das dificuldades da rotina diária.
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Diabetes, no Brasil mais de 13 milhões de pessoas vivem com a doença, o que representa 6,9% da população. Entre os tipos de diabetes, a maioria é o Tipo 2, que acontece quando o organismo não usa adequadamente a insulina que produz ou não produz insulina suficiente para controlar a taxa de glicemia. Já a diabetes Tipo 1 afeta aproximadamente 600 mil pessoas.
Já dados do relatório do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), revelam que no estado da Paraíba 11.254 pessoas morreram em decorrência da diabetes mellitus entre janeiro de 2020 e dezembro de 2025. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba (SES-PB), atualmente 12,9% da população do estado, com vinte anos ou mais, vivem com diabetes, um registro de 392.002 pessoas.
Entre as mulheres paraibanas, 14,3% têm diabetes, resultado de 229.811 diagnósticos. Em relação aos homens, o número diminui para 160.351 paraibanos, o equivalente a 11,2% da população.
A endocrinologista Lunnara Saldanha explica que uma das principais dificuldades enfrentadas pelos pacientes é manter a rotina de cuidados exigida pela doença. Segundo ela, o manejo da insulina e o monitoramento frequente da glicose costumam estar entre as maiores queixas.
“O mais desafiador, sem dúvida, é o manejo e a aplicação de insulina e a monitorização da glicose várias vezes ao dia, em virtude da frequência necessária, da dor e do desconforto das picadas, principalmente para quem não utiliza monitor contínuo”, afirma.
A especialista acrescenta que as restrições alimentares também geram dúvidas e inseguranças. Além disso, o caráter crônico da doença, o receio do surgimento de complicações, a necessidade de mudanças permanentes no estilo de vida, os custos do tratamento e a falta de apoio social contribuem para tornar o controle do diabetes ainda mais difícil.
O diabetes mellitus apresenta vários tipos e várias formas
– Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1) é uma doença crônica não transmissível, de origem autoimune, caracterizada pela destruição das células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Esse processo leva à deficiência ou ausência do hormônio no organismo. A doença tem maior incidência entre crianças e adolescentes, especialmente na faixa dos 10 aos 14 anos, embora também possa ser diagnosticada em adultos.
No Brasil, estima-se uma incidência de cerca de 25,6 casos por 100 mil habitantes ao ano, índice considerado elevado. O tratamento do DM1 exige o uso diário de insulina para o controle dos níveis de glicose no sangue, sendo fundamental para evitar complicações associadas à doença.
– Diabetes tipo 2: acontece quando o corpo não aproveita da forma correta a insulina, e a causa está relacionada ao sobrepeso, sedentarismo, triglicerídeos elevados, hipertensão e hábitos alimentares inadequados. É fundamental manter acompanhamento médico para tratar não apenas o diabetes, mas também as outras doenças. Estima-se que cerca de 90% dos pacientes brasileiros têm esse tipo da doença.
Além de quem já é diagnosticado com diabetes, é importante considerar também as pessoas em fase de pré-diabetes, condição considerada um sinal de alerta para o desenvolvimento da doença. O pré-diabetes é uma condição em que os níveis de glicose no sangue estão acima do normal, mas ainda não são suficientes para caracterizar o Diabetes tipo 1 ou tipo 2. Trata-se de um importante sinal de alerta do organismo, geralmente associado a pessoas com obesidade, hipertensão e alterações nos níveis de lipídios.
Essa fase é considerada a única etapa do diabetes em que ainda é possível reverter o quadro, evitando a progressão da doença e o surgimento de complicações, como o infarto. No entanto, estudos indicam que cerca de 50% das pessoas diagnosticadas com pré-diabetes, mesmo com acompanhamento médico, podem evoluir para o diabetes.
A adoção de hábitos saudáveis, como uma alimentação equilibrada e a prática regular de atividade física, é apontada como fundamental para o controle e possível reversão dessa condição.
Mulheres grávidas também podem apresentar a doença temporariamente durante a gestação. Isso acontece porque as taxas de açúcar ficam acima do normal, mas abaixo do valor para classificar como diabetes tipo 2. Durante o pré-natal, as mulheres devem fazer o acompanhamento para evitar os riscos de complicações na gravidez e no parto. Esse tipo de diabetes afeta entre 2 e 4% das gestantes e pode aumentar o risco de diabetes para a mãe e o bebê.
Já a Diabetes Latente Autoimune do Adulto (LADA) trata-se de uma condição que acomete principalmente adultos e é caracterizada pela destruição das células do pâncreas, decorrente de um processo autoimune do próprio organismo.
Mesmo sendo uma doença física, o diabetes pode causar transtornos mentais na vida dos pacientes. Segundo dados da Associação Nacional de Atenção ao Diabetes, estima-se que 6% a 8% dos idosos diabéticos são afetados pela demência. Também é apontado aumento de 2 a 3,4 vezes o risco de demência vascular e 1,8 a 2 vezes maior risco da doença de Alzheimer em pessoas dessa faixa etária. O diabetes afeta a estrutura e função do cérebro, com lesões cerebrais mais frequentes e maior atrofia cortical.
Os avanços tecnológicos têm contribuído para tornar o tratamento mais seguro e menos invasivo. Aparelhos como Monitores Contínuos de Glicose (CGM) e Sistemas Flash (FGMs) são dispositivos aplicados no corpo e medem os níveis de glicose, permitindo o paciente viver com mais segurança e liberdade.
Segundo a endocrinologista, os sensores de monitoramento contínuo de glicose representam uma das principais inovações para os pacientes. “Esses dispositivos fornecem acompanhamento em tempo real dos níveis de glicose com alertas automáticos para episódios de hipoglicemia (glicose baixa) e hiperglicemia (glicose alta), favorecendo um melhor controle glicêmico reduzindo o risco de complicações crônicas”, explica.
Ela destaca ainda a utilização das bombas de insulina, indicadas especialmente para pacientes com diabetes tipo 1. Os equipamentos realizam a liberação contínua de insulina, simulando de forma mais próxima o funcionamento natural do pâncreas.
Apesar dos benefícios, a médica ressalta que o acesso a essas tecnologias ainda é limitado pelo alto custo e pela necessidade de substituição periódica dos equipamentos. Em alguns casos, o fornecimento ocorre por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), muitas vezes após decisão judicial.
De acordo com Lunnara Saldanha, o desgaste psicológico influencia diretamente a continuidade do tratamento. “O fator psicológico tem um impacto enorme na adesão ao tratamento do diabetes. Muitas pessoas abandonam o tratamento porque o peso emocional de lidar com a doença diariamente se torna difícil de sustentar”, destaca.
A endocrinologista explica que conceitos como diabetes burnout, caracterizado por exaustão física e emocional, e diabetes distress, relacionado ao sofrimento provocado pela doença, têm sido cada vez mais observados na prática clínica. Segundo ela, essas condições podem levar à redução do uso de medicamentos, à diminuição da frequência dos exames e consultas, além de favorecer comportamentos como o comer emocional e o abandono das recomendações alimentares.
“A depressão é mais comum em pessoas com diabetes do que na população geral, e também pode piorar sintomas como falta de energia, dificuldade de concentração e de manter o autocuidado”, acrescenta.
O desabastecimento de insulina e insumos (como tiras de glicemia) afeta cerca os brasileiros que dependem do SUS, como também pessoas que não têm condições de arcar com as despesas para o tratamento da doença. As consequências devido a ausência de insumos pode ser grave.
De acordo com Lunnara Saldanha, a ausência de materiais como fitas reagentes, lancetas e agulhas pode comprometer o monitoramento da glicemia e aumentar o risco de complicações.
“As consequências podem afetar tanto a saúde física quanto a qualidade de vida, em razão do controle inadequado da glicemia, pois a ausência de monitorização dificulta ajustes na alimentação, na atividade física e na dose de insulina, aumentando o risco de complicações crônicas com Retinopatia diabética (problemas de visão), Doença Renal diabética, Neuropatia diabética (lesões nos nervos); além de Doenças cardiovasculares, como infarto e AVC e aumento das internações hospitalares”, alerta.
A especialista também chama atenção para as dificuldades relacionadas à alimentação. Segundo ela, muitos pacientes acabam recorrendo a produtos ultraprocessados por serem mais acessíveis financeiramente, o que dificulta o controle da doença e favorece o ganho de peso.
A realidade econômica dos pacientes também influencia diretamente as decisões médicas. Segundo a endocrinologista, é comum que o tratamento precise ser adaptado à capacidade financeira de cada pessoa.
“Frequentemente precisamos adaptar o tratamento aos recursos financeiros disponíveis. Em muitos casos, precisamos substituir medicamentos mais modernos por alternativas disponíveis no SUS ou de menor custo para garantir adesão ao tratamento”, afirma.
Para a médica, a adesão contínua é um dos fatores mais importantes para o sucesso terapêutico. “A realidade socioeconômica é um fator importante na tomada de decisão clínica, pois um tratamento acessível e seguido corretamente tende a produzir melhores resultados do que uma opção considerada ideal, mas inviável financeiramente para o paciente”, conclui.
Na Paraíba, pacientes com diabetes contam com serviços e programas voltados ao tratamento e acompanhamento da doença. Em João Pessoa, usuários assistidos pela rede municipal de saúde podem se cadastrar no aplicativo João Pessoa na Palma da Mão para receber canetas reutilizáveis de insulina, consideradas mais práticas e seguras para a administração do medicamento.
Já por meio da Farmácia de Alto Custo, vinculada ao Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF), a Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba disponibiliza insulinas análogas de ação rápida e prolongada, seguindo os protocolos estabelecidos pelo Ministério da Saúde para auxiliar no controle adequado dos níveis de glicose no sangue.
A Paraíba também conta com iniciativas voltadas à pesquisa e ao atendimento especializado. Em João Pessoa, o Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), atua como referência no acompanhamento de pacientes com pré-diabetes e diabetes, oferecendo assistência multidisciplinar por meio de profissionais de diferentes áreas da saúde.
Beatriz Paulino / polemicaparaiba
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