
No último fim de semana, a disputa pelo protagonismo nas tradicionais festas de São João do Nordeste ganhou novos capítulos.
A cantora Walkyria Santos e o forrozeiro Flávio José protestaram publicamente contra a postura do público e a disparidade dos cachês em comparação aos de artistas de outros gêneros, especialmente o sertanejo, nos principais polos juninos da região.
A onda de desabafos de Walkyria começou na tarde do último sábado (6), em Caruaru (PE), e estendeu-se para a noite em Campina Grande (PB).
Paralelamente, Flávio José anunciou o cancelamento de suas apresentações em solo baiano criticando o que chamou de "desvalorização" da cultura local. Entenda o que aconteceu.
'Deixa o sertanejo lá'
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Polo Alto do Moura no São João de Caruaru — Foto: Rafael Lima/PMC
A primeira declaração da ex-vocalista da banda Magníficos foi dada na tarde de sábado, no palco do Alto do Moura, em Caruaru (PE) — polo tradicionalmente focado nas raízes do forró.
Diante da resposta calorosa do público, a cantora estabeleceu uma comparação direta com o Pátio de Eventos Luiz Gonzaga, o principal da cidade:
"Não tem um artista de forró que passe por esse palco [do Alto do Moura] e não se emocione com esse público. Deixa o sertanejo lá naquele palco principal e a gente do forró aqui. Eu só quero vir pra cá agora, viu?"
Cobrança no público da Paraíba
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Look Walkyria Santos no São João 2025 de Campina Grande — Foto: Divulgação
Horas mais tarde, já na noite do mesmo sábado, Walkyria subiu ao palco principal do Parque do Povo, em Campina Grande (PB).
Durante a apresentação, iniciada por volta das 21h, a cantora se incomodou com a postura do público e cobrou a atenção de quem, segundo ela, demonstrava apatia à espera da principal atração sertaneja da noite:
"Tá todo mundo bem aí? Tô achando vocês acanhados. Estão esperando Henrique & Juliano? Tem outras atrações antes deles, viu? Vocês podem interagir, cantar, dançar... não vai fazer mal a ninguém", disparou a artista de cima do palco.
No dia seguinte, a cantora foi às redes sociais explicar o desabafo, revelando que a insatisfação também se deu por problemas de bastidores. "Meu horário foi mudado de última hora e quando as coisas saem do combinado, a gente entristece", justificou.
'Você vê banda de forró no Villa Mix?'
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Cantor Robson Paiva sai em defesa de Walkyria e do forró: 'No Sul, existe um acordo para não contratarem bandas de Forró do Nordeste'. — Foto: Redes sociais
Mas o assunto não parou por aí. Nos comentários do seu perfil, o debate acabou ganhando o apoio de outros nomes do segmento.
O cantor potiguar Robson Paiva saiu em defesa de Walkyria e apontou a existência de um "acordo velado" no mercado fonográfico, que abriria as portas do Nordeste para artistas do sertanejo, mas impediria a circulação de bandas de forró tradicionais em grandes festivais nas regiões Sul e Sudeste do país.
Em entrevista ao g1, o artista questionou a falta de reciprocidade no tratamento entre os gêneros nas diferentes regiões do Brasil:
"Quando foi que você viu Walkyria Santos tocando em Goiânia, por exemplo? Você não vai encontrar. Se você fizer um balanço sobre os festivais de música que acontecem no Sul e no Sudeste, com raras exceções, nenhum inclui bandas de forró. Mas os sertanejos de lá estão sempre aqui. Não é um acordo no papel, mas todo mundo sabe."
Flávio José cancela agenda na Bahia
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Flávio José durante apresentação no São João 2024 de Campina Grande — Foto: Erickson Nogueira/g1
A insatisfação com os rumos da formatação das grades juninas não ficou restrita aos palcos paraibanos e pernambucanos. E ainda subiu de tom.
Em forma de protesto, o cantor e sanfoneiro Flávio José, de 74 anos, anunciou o cancelamento de 15 apresentações agendadas para o período na Bahia, apontando desvalorização financeira por parte das organizações locais em comparação a artistas de fora do Nordeste.
Em comentário nas redes sociais, o forrozeiro lamentou a situação e criticou diretamente a disparidade de investimentos:
"Este ano a Bahia ficará sem minha presença. Às vésperas da maior festa de manifestação cultural do Nordeste, eu recebo a notícia de que o MP da Bahia resolveu diminuir o meu cachê! Enquanto outros artistas que nada têm a ver com o forró, como sertanejos, ganham rios de dinheiro."
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Flávio José diz que não fará shows no São João da Bahia após recomendação do MP sobre redução de cachês — Foto: Reprodução/Redes Sociais
Henrique & Juliano minimizam 'polêmica'
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Show da dupla Henrqiue e Juliano reuniu multidão em Campina Grande — Foto: Reprodução/São João de Campina Grande
Questionado pelo g1 Paraíba sobre as críticas locais em relação à forte presença do sertanejo no evento tradicional do estado, o cantor Henrique, da dupla com Juliano, minimizou a polêmica.
“Acho que a gente tem que exaltar mais o lado positivo, não dar tanta visibilidade para o negativo da coisa, sabe? São 60 mil pessoas que estão aí, então a gente tem que dar o nosso melhor pra essa galera que saiu de casa”, declarou o sertanejo antes de subir ao palco.
O que dizem as prefeituras: os números das grades
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Show de Falamansa no São João de Caruaru 2026 — Foto: Reprodução/PMC
Apesar do tom inflamado dos protestos, as organizações dos dois maiores polos juninos do país defendem que o ritmo tradicional continua sendo a base dos eventos.
A Prefeitura de Campina Grande informou que mais da metade das atrações deste ano são de forró.
O gênero representa 52% das 119 apresentações confirmadas para os 33 dias de festa (que se estende de 3 de junho a 5 de julho).
O sertanejo aparece somente em terceiro lugar, representando 7% das atrações.
Já a Prefeitura de Caruaru garantiu ao g1 um índice ainda maior: 80% de toda a programação deste ano dedicada exclusivamente ao gênero tradicional.
Ao todo, o evento projeta a participação de 26 mil artistas, englobando trios pé-de-serra, bandas, quadrilhas juninas, grupos de dança, além de repentistas e os tradicionais bacamarteiros.
A grade do município pernambucano está distribuída por 27 polos de animação ao longo de 78 dias de festa, que começou em 10 de abril e segue até 27 de junho.
Por Felipe Fernandes, g1 Bahia, g1 Paraíba
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