
As emissões de gases causadores do efeito estufa do Brasil tiveram em 2021 sua maior alta em 19 anos, segundo um relatório emitido nesta terça-feira (1º) pelo Observatório do Clima. O recorde é catalisado pela energia, pela pecuária e, principalmente, pelas taxas recordes de desmatamento na Amazônia durante o governo do presidente Jair Bolsonaro — no ano passado, a destruição dos biomas brasileiros poluiu mais a atmosfera que as emissões totais do Japão.
Em 2021, o Brasil emitiu 2,42 bilhões de toneladas brutas de dióxido de carbono (CO2), mostra o documento lançado a cinco dias da COP27, a conferência da ONU sobre o clima, que neste ano acontece em Sharm el-Sheikh, no Egito. O volume representa cerca de 4% das emissões globais, um crescimento pelo quarto ano consecutivo, algo inédito desde que a série histórica começou em 1990.
No total, as emissões brasileiras em 2021 foram 12,2% mais altas que em 2020, segundo os dados compilados pelo Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima, a principal rede da sociedade civil brasileira sobre a agenda climática, que reúne 77 organizações. A alta deste ano só não é maior que a de 2003, quando o país teve um recorde histórico de emissões após um incremento de 20% devido ao aumento do desmatamento na Amazônia.
— É o Brasil andando para trás, por isso dizemos que esta é uma década perdida — disse ao GLOBO Tasso Azevedo, coordenador do SEEG. — É como se estivéssemos nadando contra a corrente, sem sair do lugar.
As emissões cresceram em todos os setores, exceto resíduos, mas 49% delas vieram de mudanças no uso da terra. O país vai na contramão das promessas feitas na COP26 e confirmadas à ONU em abril deste ano: cortar as emissões em 37% até 2025, em comparação com 2005, e reduzi-las pela metade até o fim da década. Também está distante de zerar o desmate ilegal, como disse que faria nos próximos seis anos, mesmo sem traçar planos para tal.
A meta, disse Azevedo, é pouco ambiciosa, e cumpri-la não é “nenhum bicho de sete cabeças”: para chegar lá, é necessário controlar o desmatamento. O aumento anual de 18,5% nas emissões brutas geradas por mudanças no uso da terra, entretanto, também é o maior dos últimos 19 anos, mostra a 10ª edição do relatório.
A destruição dos biomas brasileiros por si só foi responsável por lançar 1,19 bilhão de toneladas brutas de CO2 na atmosfera no ano passado — cerca de 40 milhões de toneladas a mais do que todas as emissões japonesas no mesmo intervalo.
Apenas o desmatamento na Amazônia responde por 77% da poluição causada pelo setor no último ano, frente às catastróficas políticas ambientais do governo Bolsonaro. Entre agosto de 2020 e julho de 2021, 13,2 mil km2 da Amazônia Legal foram destruídos, a maior taxa em 15 anos — nos três primeiros anos de Bolsonaro, a área desmatada cresceu 73%, segundo dados do preciso sistema Prodes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
O compilado anual do Prodes é habitualmente divulgado em outubro, mas no ano passado só foi lançado após a COP26. O documento deste ano também está atrasado, mas os números prévios não devem mostrar um cenário muito melhor: o acumulado de alertas de desmatamento na Amazônia Legal entre janeiro e 21 de outubro deste ano foi de 9.277 km2, a pior marca da série histórica do Deter, o sistema de detecção em tempo real do Inpe.
Pós-eleição
O relatório vem também dois dias após a confirmação da vitória de Lula, que fez sinalizações contundentes para a Amazônia em seu discurso inaugural pós-resultado. Disse que o “Brasil está pronto para retomar seu protagonismo na luta contra a crise climática, protegendo todos os nossos biomas, sobretudo a Floresta Amazônica”.
Entre 2004 e 2012, os governos petistas reduziram em 80% o desmate na região, e agora Lula promete “lutar pelo desmate zero”, dizendo-se comprometido com os povos indígenas, com o monitoramento da floresta e o combate ao garimpo, por exemplo. A guinada foi bem vista pela comunidade internacional e deve transformar o governo de transição em uma das estrelas de COP27.
— O desejo é que nada disso sucumba às agendas negociadas com o Centrão. Que ela permaneça uma agenda com o mesmo grau de importância de outras agendas tão vitais como o combate à fome e a recuperação econômica — disse Azevedo. — Temos todas as condições de reverter isso e sair desta posição de patinho feio.
Outros biomas também sofrem, já que os gases-estufa emitidos pela destruição da Mata Atlântica e do Cerrado subiram respectivamente 65% e 4%. Na semana passada, um documento divulgado pela ONU mostra que o Brasil e a Indonésia foram os únicos países do G20 em que mudanças no uso da terra e florestas emitem mais CO2 do que absorve.
O desmate não é o vilão único, já que as emissões do setor de processos industriais e usos de produtos cresceram 8,2%. No setor de energia, o incremento foi de 12,2%, o maior desde 1973, ano do chamado “milagre econômico” da ditadura militar — cenário que acompanha a tendência mundial na recuperação econômica pós-pandemia, após registrar quedas durante a crise sanitária.
Energia e pecuária
O setor energético emitiu 435 milhões de toneladas de CO2 em 2021, contra 387 milhões do ano anterior. O relatório também atribui a alta a outros dois fatores: a queda da safra de cana, que aumentou o preço do etanol, e a pior estiagem em nove décadas no Centro-Sul brasileiro em nove décadas, que secou hidrelétricas e demandou que termelétricas fossem acionadas. O governo Bolsonaro tornou a decisão permanente, decisão que vai na contramão do plano oficial de promover o país como um expoente da energia renovável na COP27.
— Não adianta você ter mais energia solar e eólica se você continua precisando ligar as termelétricas quando falta água — disse Azevedo, ressaltando que o desmate na Amazônia reduz a capacidade de geração de vapor d’água no Centro-Sul, impactando muito o Pantanal, mas também o restante do país. — É um tema crítico para o Brasil.
A agropecuária também teve as maiores emissões de sua série histórica, após um crescimento de 3,8%: foram 601 milhões de toneladas de CO2, contra 579 milhões em 2020. A África do Sul inteira polui menos que todo o agro brasileiro — se fosse um país, o setor ocuparia o 16º lugar no ranking das nações mais poluidoras.
A maior responsável pelo recorde é a pecuária, que representa 79,4% das emissões do setor, após o rebanho bovino aumentar 3,1% em 2021, três vezes mais que a média dos últimos 18 anos. O arroto desses animais, contudo, é sozinho responsável por quase um terço de todas as emissões globais de metano, gás que é até 80 vezes mais potente que o CO2 no aquecimento do planeta em um período de 20 anos.
O aumento vai também na contramão de outro pacto assinado pelo Brasil no ano passado, em que 103 nações se comprometeram a cortar em 30% as emissões de metano até 2030. Na agricultura, os problemas centrais são o uso de fertilizantes nitrogenados e o volume de calcário nas lavouras.
Por O Globo
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