Um relatório publicado na última quarta-feira pela Organização das Nações Unidas (ONU) apontou que mais da metade dos assassinatos de mulheres em todo o mundo foram cometidos por maridos, parceiros ou outros parentes. O mais recente levantamento da entidade sobre feminicídio apontou que mais de cinco mulheres e meninas foram mortas a cada hora por um membro da família em 2021.

Segundo o relatório, 45 mil dos mais de 81 mil assassinados (56% do total) no período estão nessa categoria. A ONU Mulheres e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime consideraram os números “alarmantemente altos”, sendo que o número real de feminicídios (quando mulheres são mortas por conta de seu gênero) é provavelmente muito maior.

Ainda de acordo com o levantamento, aproximadamente quatro em cada 10 mortes em 2021 não foram contabilizadas como feminicídios por insuficiência nos dados. Os números oficiais sobre feminicídio em todo o mundo seguem uma tendência de estabilidade na última década.

O estudo cita ainda a interferência da pandemia de Covid-19 nos dados. Em 2020, houve um aumento significativo de feminicídios na América do Norte e no oeste e no sul da Europa.

— Nenhuma mulher ou menina deve temer por sua vida por causa de quem ela é — disse Ghada Waly, diretora executiva do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. — Para acabar com todas as formas de assassinatos de mulheres e meninas relacionados ao gênero, precisamos contar todas as vítimas, em todos os lugares, e melhorar a compreensão dos riscos e motivadores do feminicídio, para que possamos projetar respostas de prevenção e justiça criminal melhores e mais eficazes.

Advogada de direitos humanos e coordenadora regional para as Américas da organização internacional de direitos das mulheres Equality Now, Bárbara Jiménez-Santiago aponta que dados abrangentes sobre feminicídio devem ser disponibilizados e que as estatísticas devem incluir mortes resultantes de outras formas de violência — como exemplo, uma mulher que comete suicídio após um estupro ou uma menina que engravida devido a um estupro e morre durante o parto.

Ela acrescenta que muitos países ainda têm leis que discriminam mulheres e meninas, incluindo aquelas que permitem o estupro dentro do casamento ou permitem que os estupradores evitem a punição casando-se com as vítimas.

— A violência doméstica ainda é comumente vista como um assunto privado de 'família' em algumas partes do mundo. A polícia e os promotores muitas vezes não levam os casos a sério, e a culpabilização das vítimas é generalizada. Isso impede que mulheres e meninas denunciem violações. Os infratores ficam impunes e isso promove uma cultura de impunidade que perpetua mais abusos — afirmou.

 

Por O Globo — Nova York

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