Sete em cada dez adolescentes estão dormindo menos do que o necessário, segundo uma pesquisa com mais de 120 mil jovens publicada na revista científica Jama. O dado acende um alerta para os impactos da privação de sono, que vão de irritabilidade e dificuldade de aprendizagem até alterações hormonais e maior risco de obesidade.

Em entrevista ao podcast do Bem-Estar, o pediatra especialista em sono Gustavo Moreira explica que o problema resulta de uma combinação de fatores biológicos e comportamentais — e que pequenas mudanças na rotina podem melhorar a qualidade do descanso.

 

A ‘tempestade perfeita’ da adolescência

O especialista explica que a adolescência é marcada por uma mudança natural no padrão de sono. Os jovens passam naturalmente a ter um perfil mais vespertino, ou seja, tendem a dormir mais tarde e acordar mais tarde.

O problema é que a rotina social não acompanha essa mudança. Com aulas pela manhã, compromissos e longos deslocamentos, muitos adolescentes acabam indo dormir tarde e acordando cedo — o que gera um déficit crônico de sono ao longo da semana.

Dois mecanismos influenciam diretamente o sono:

 

  • Fator homeostático: acúmulo de cansaço ao longo do dia
  • Fator circadiano: o relógio biológico, que regula os horários de sono e vigília

A exposição à luz das telas à noite ainda interfere na produção de melatonina, hormônio que induz o sono, dificultando ainda mais o descanso.

 

Efeito cascata: do mau humor a doenças

Dormir mal não é apenas uma questão de cansaço. O sono tem papel essencial no funcionamento do organismo, comparável à alimentação e à respiração, segundo o especialista.

Durante o descanso, o corpo:

 

  • repara células
  • produz hormônios importantes, como os de crescimento
  • regula metabolismo e hormônios do estresse
  • consolida o aprendizado

 

Na adolescência, fase crítica de desenvolvimento físico e do sistema nervoso, a privação de sono pode intensificar a instabilidade emocional e aumentar o risco de transtornos mentais, como depressão e transtorno bipolar.

 

Hormônios da fome e risco de obesidade

A falta de sono também interfere diretamente na regulação do apetite. Segundo Moreira, há um desequilíbrio entre dois hormônios:

 

  • Grelina, que aumenta a fome
  • Leptina, que promove a saciedade

 

Quando o sono é insuficiente, esse sistema se desregula, favorecendo uma maior ingestão de alimentos e ganho de peso — fenômeno já observado, por exemplo, em trabalhadores noturnos.

 

Quantas horas um adolescente precisa dormir?

A recomendação média é de cerca de 9 horas de sono por noite, podendo variar entre 8 e 10 horas. Dormir menos do que isso já está associado a prejuízos.

O sono também é dividido em fases:

 

  • Sono não REM: mais profundo, ocorre no início da noite e está ligado à produção do hormônio do crescimento
  • Sono REM: mais frequente no fim da noite, associado aos sonhos e à consolidação da memória

 

Por isso, dormir menos compromete especialmente o sono REM — essencial para o aprendizado.

 

“Jet lag social” e rotina desregulada

Um fenômeno comum entre adolescentes é o chamado “jet lag social”: durante a semana, dormem pouco e, no fim de semana compensam, dormindo muito mais tarde e acordando tarde.

Esse padrão desregula ainda mais o relógio biológico e perpetua o ciclo de privação de sono.

 

Telas são o principal vilão

Entre os principais erros na higiene do sono, o uso do celular à noite se destaca.

Além da luz, os aplicativos são projetados para manter a atenção do usuário, estimulando o cérebro e dificultando o relaxamento necessário antes de dormir.

Outros fatores que atrapalham o sono incluem:

 

  • consumo de cafeína à noite
  • atividade física no período noturno
  • falta de rotina para dormir e acordar

 

O que pode ajudar a melhorar o sono

O especialista recomenda medidas simples para regular o sono:

 

  • manter horários fixos para dormir e acordar
  • reduzir estímulos à noite
  • evitar telas antes de dormir
  • tomar sol pela manhã
  • criar um ambiente tranquilo no quarto

 

Papel dos pais é decisivo

Para adolescentes, estabelecer limites é fundamental. Segundo Moreira, os pais devem definir regras claras, como retirar o celular do quarto à noite e criar uma rotina consistente. Dar o exemplo também é essencial.

 

Quando procurar ajuda

Problemas persistentes de sono devem ser avaliados por um médico.

Entre os principais distúrbios estão:

 

  • insônia: dificuldade para iniciar ou manter o sono
  • apneia do sono: associada a ronco e sonolência diurna

 

Nesses casos, a orientação profissional pode ajudar a identificar causas e ajustar hábitos — geralmente sem necessidade de medicação, com foco em mudanças comportamentais.

 

Por Bem-Estar

 

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