O presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a priorizar a agenda de pré-campanha para 2026, seja no Palácio do Planalto ou em palanques montados nos estados para divulgar políticas públicas. A ideia é aproveitar a melhora nos índices de popularidade e, assim, se cacifar como candidato mais bem posicionado para a disputa do ano que vem. A estratégia se apoia em um tripé: antagonismo ao Congresso em pautas consideradas prioritárias pelo Planalto, entregas de programas com apelo popular e divulgação de imagens que transmitam a ideia de “vigor físico” do petista.

O gabinete presidencial passou a reservar dois dias da semana, normalmente quintas e sextas-feiras, para viagens de Lula para fora de Brasília. No Planalto, a determinação é tirar Lula do gabinete e colocá-lo para rodar o Brasil, próximo das pessoas e falando do governo.

Os roteiros têm priorizado anúncios de novos programas, entregas de casas e visitas a hospitais para divulgar o Agora Tem Especialistas, uma iniciativa do Ministério da Saúde. Em eventos pelo país, o presidente reserva ainda o final dos discursos para reafirmar que é candidato à reeleição e que “não deixará a extrema direita voltar a governar”.

O Planalto passou a escolher estrategicamente o local onde Lula fará esses anúncios, em processo comandado pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira. O marqueteiro de Lula estuda as cidades onde eles serão feitos, buscando aliar o foco do programa ao seu público-alvo. Na descrição de colegas de Esplanada, Sidônio tem se “desdobrado” para transformar os eventos em fatos positivos.

Em 10 de outubro, por exemplo, Lula foi a São Paulo, reduto de Tarcísio de Freitas, considerado pelo Palácio do Planalto o principal adversário de Lula em 2026, para lançar o novo modelo de crédito imobiliário com recursos da poupança com foco em pessoas que querem financiar imóveis de até R$ 2,2 milhões.

A escolha do local mirou a classe média, segmento que o governo pretende disputar com mais intensidade à medida que se aproxima a eleição.

Já o lançamento do programa de reforma de casas, que deve oferecer R$ 30 mil em crédito, está previsto para o início de novembro em uma favela ou bairro de classe média baixa, reforçando a ligação do governo com os mais pobres.

Sidônio também tem recomendado que os programas sejam anunciados apenas quando já estiverem em vigor. A preparação de cada evento leva cerca de duas semanas e envolve equipes de cerimonial, comunicação, imagem e do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

 

Pautas eleitorais

O governo também tem antecipado temas que devem pautar o debate eleitoral, como o fim da escala 6x1 e a tarifa zero no transporte coletivo. Mesmo que essas medidas não sejam implementadas neste mandato, a intenção é posicionar Lula como protagonista de propostas com forte apelo entre trabalhadores e disputar espaço com os adversários no debate presidencial de 2026.

Outro eixo da comunicação é a divulgação de imagens em que Lula aparece correndo ou fazendo esforço físico, tanto no Palácio do Planalto — onde subiu correndo a rampa entre o segundo e o terceiro andar após um evento de economia solidária em agosto — quanto em compromissos externos, como a Corrida de 95 anos do Ministério da Educação, em setembro na Esplanada.

O objetivo é reforçar a ideia de que, prestes a completar 80 anos, o presidente mantém boa forma e energia para um quarto mandato. Esse componente também está no discurso de Lula.

— Vou fazer 80 anos. Mas vocês percebem que eu estou parecendo um jovem de 30 anos aqui. Vocês sabem. Você vê, a Janja vir me elogiar aqui não foi à toa, não. É porque o meninão aqui, sabe… Eu estou a 180 km/h. Eu estou que nem carro de Fórmula 1, tá? — discursou Lula em setembro.

O entorno presidencial reconhece que os movimentos são intencionais. Auxiliares afirmam que a estratégia é evitar qualquer tipo de questionamento sobre a capacidade física de Lula, hoje com 79 anos, para governar o Brasil até 2030, na hipótese de ser reeleito

O alerta veio a partir do caso do ex-presidente dos Estados Unidos Joe Biden, que deixou a disputa da reeleição por fragilidades na sua condição física e mental.

 

Sem citar Tarcísio

No Planalto também há uma preocupação em antecipar possíveis embates, mas sem nacionalizar nomes da oposição. Lula foi aconselhado a não ficar repetindo o nome de Tarcísio de Freitas. O petista tem optado por antagonizar com o Congresso em temas estratégicos, como a PEC da Blindagem e o aumento do número de deputados, sobre os quais há forte rejeição entre a população, segundo pesquisas.

Desde que o governo foi derrotado com o decreto legislativo que derrubou a alta do IOF (Imposto Sobre Operações Financeiras), no fim de junho, o governo adotou uma linha política de que o embate com a oposição deve ser feito apontando a mira para o Congresso.

Lula diminuiu as comparações do seu governo com a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e passou a citar os projetos enviados ao Legislativo que não foram votados pelos parlamentares. Essa estratégia foi usada com a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a PEC da Segurança.

Auxiliares afirmam que Lula “se encontrou” nesse embate e que é um caminho sem volta até a eleição.

Outro pano de fundo dessa tática é a preocupação de Lula e do PT de eleger mais deputados em 2026 e evitar o crescimento da direita. Na última quarta-feira, em evento no Rio de Janeiro, Lula se dirigiu ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para discursar sobre a importância do voto e criticar o “baixo nível” do Congresso.

Lula disse que é preciso que os parlamentares eleitos não mexam nas “políticas de Estado que têm sucesso no país” apenas por discordâncias políticas. O petista também pediu que a população vote em “quem tem compromisso”.

— O Hugo é presidente desse Congresso, e ele sabe que nunca teve uma qualidade de tão baixo nível como tem agora. Aquela extrema direita que se elegeu na eleição passada é o que existe de pior — afirmou o presidente.

 

Por Jeniffer Gularte — Brasília / O GLOBO

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