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Quarta-Feira, 1 de Julho de 2026 | |
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Dados fornecidos pelas secretarias de segurança de nove estados brasileiros — Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo — mostram que 4.330 pessoas foram vítimas da letalidade policial em 2025, um aumento de 6,4% na comparação com o ano anterior. A informação foi divulgada pela Rede de Observatórios da Segurança, que lança nesta quarta-feira a sétima edição do estudo anual “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã”.

O relatório aponta que jovens negros de até 29 anos representam 64,8% dos mortos (2.804). São majoritariamente homens, moradores de periferias ou favelas. Dentro deste total, as crianças e os adolescentes somaram 312 vítimas.

A Rede de Observatórios é uma iniciativa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) dedicada a acompanhar políticas públicas de segurança, fenômenos de violência e criminalidade em nove estados.

Os pesquisadores concluíram que, na média dos estados monitorados, pessoas negras sofrem quatro vezes mais risco de serem mortas pela polícia do que pessoas brancas. O cálculo foi feito com base nas taxas de mortes decorrentes de intervenção policial por 100 mil habitantes, calculadas separadamente para a população negra e branca.

 

Veja a média por estado na taxa por 100 mil habitantes:

Vítimas de mortes decorrentes da intervenção policial em 2025

Estado Negros Brancos
Amazonas 0,8 0,1
Bahia 11 2,9
Ceará 1,2 0,4
Maranhão 1,1 0,4
Pará 8 2,4
Pernambuco 1,4 0,1
Piauí 0,7 0,4
Rio de Janeiro 6,3 1,1
São Paulo 2,7 1,1

Fonte: Elaborado pela Rede de Observatórios com base nas informações enviadas pelas secretarias de segurança

 

Ocultação em dados

O relatório também destaca a "opacidade e a qualidade" dos dados fornecidos pelas secretarias de segurança pública. Os pesquisadores apontam que estados como Maranhão e Ceará utilizam a categoria "não informado" para ocultar o perfil racial de, respectivamente, 54,9% e 57,5% de suas vítimas.

"A pesquisa comprova que, à medida que o governo estadual qualifica a coleta e preenche os dados corretamente, o recorte racial fica ainda mais nítido, sendo a falta destas informações não apenas uma falha burocrática, mas uma omissão que insiste em invisibilizar o recorte racial da letalidade estatal", diz o instituto.

Outro ponto destacado é a forma como a dinâmica da letalidade policial tem se reconfigurado com a expansão e articulação de facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) em direção às regiões Norte e Nordeste. Segundo o relatório, o cenário desencadeia "respostas governamentais baseadas exclusivamente na lógica da militarização e do confronto".

Como resultado, quatro estados registraram o maior número de mortes de suas séries históricas desde 2019: Ceará (200), Maranhão (142), Pará (632) e São Paulo (834).

Veja os principais destaques do estudo em cada estado:

 

Amazonas

  • Repetiu o número de mortes decorrentes de intervenção policial do ano anterior (43).
  • Pessoas negras representam 96% das vítimas, a maior proporção entre todos os estados monitorados.
  • Há a ausência de reconhecimento oficial de vítimas indígenas, justamente em um estado onde 12,5% da população se autodeclara indígena.
  • As mortes se espalharam de 10 para 16 municípios, e o interior passou a concentrar 62,8% dos casos, enquanto a capital Manaus respondeu por 37,2% das vítimas.

 

Bahia

  • Houve queda na comparação ao recorde de mortes do ano anterior (1.702). Em 2025, foram 1.570 vítimas.
  • População negra compõe 79,7% dos habitantes da Bahia, mas representa 93,9% das vítimas da letalidade policial, com 1.243 mortes.
  • Entre os 417 municípios, 12 acumulam metade das vítimas e, dos 365 dias do ano, 346 registram mortes.

 

Ceará

  • Atingiu o maior número de mortes de sua série histórica desde 2019: 200 vítimas em 2025.
  • Jovens negros têm três vezes mais risco de morrer por intervenção policial no estado do que jovens brancos. Pessoas negras representaram 87,1% dos mortos.
  • Pesquisadores destacam que o cenário está sendo agravado, em 2026, pela aprovação de um decreto do governador Elmano de Freitas, que alterou a classificação técnica das ocorrências.
  • "A nomenclatura mudou de 'mortes por intervenção policial' para 'lesão corporal/homicídio decorrente de oposição à intervenção'. A medida enquadra legalmente a vítima como 'opositor'e o policial como 'interventor' (e não mais 'autor'), chegando ao ponto de a morte ser autorizada pelo Estado", destaca o relatório.

 

Maranhão

  • Registrou 142 mortes em 2025, maior número de sua série histórica, consolidando uma escalada de longo prazo — em 2015 o estado anotou 53 casos, quase triplicando o número de letalidade em uma década.
  • Mais da metade dos casos (50,7%) concentrou-se em apenas 11 municípios, e um perfil de vítimas que reforça a seletividade da letalidade, pois 67,6% do total de mortos tinham 29 anos ou menos.
  • Mais da metade dos registros de letalidade policial (54,9%) não informa a raça ou cor das vítimas, ocultando o impacto racial da violência estatal.
  • Dos 217 municípios do estado, 40% das letalidades ocorreram em 35 deles, muitos com menos de 15 mil habitantes, evidenciando também a interiorização dessa violência.
  • A Polícia Militar foi responsável por 83,1% dos óbitos registrados.

 

Pará

  • No ano em que sediou a COP30, a letalidade policial cresceu. Foram 632 mortes em 2025, 35 a mais do que no ano anterior, e o maior número da série histórica
  • As mortes foram concentradas especialmente na Região Metropolitana: Belém, Ananindeua e Marituba somaram 193 vítimas, quase um terço do total do estado.
  • O perfil dos mortos mostra que 418 estavam na faixa de 12 a 29 anos, e a Polícia Militar foi responsável por 89,7% das mortes registradas oficialmente.
  • Estado apresentou a segunda maior taxa de letalidade policial contra pessoas negras entre os estados monitorados, sendo 8 por 100 mil habitantes.

 

Pernambuco

  • Mortes decorrentes de intervenção policial cresceram 30,9% em relação ao ano anterior, com 89 vítimas.
  • Pessoas negras (65,3% da população) foram quase todos os mortos pela polícia: 94,4%, percentual respaldado por registros com preenchimento integral de raça ou cor.
  • Negros correm 11 vezes mais risco de serem mortos pela polícia do que outros.
  • A letalidade também atingiu principalmente a juventude: 71,9% das vítimas tinham até 29 anos.

 

Piauí

  • Registrou 20 mortes decorrentes de intervenção policial no ano passado e foi o único estado monitorado a apresentar redução da letalidade policial, com queda de 16,7% em relação ao ano anterior.
  • Relatório associa a queda dos índices de 2025 a iniciativas como a criação da Superintendência de Promoção da Igualdade Racial e a adoção de protocolos antirracistas na Polícia Militar do estado.
  • No entanto, alerta para o crescimento de mortes ocultas no Piauí por causas indeterminadas que "revelam tendência crescente e paralela à diminuição estatística dos homicídios".
  • Mais da metade das vítimas tinha entre 18 e 29 anos (55%), e 65% delas morreram em confronto com a Polícia Militar.
  • Pessoas negras representam 77,1% da população do estado, mas correspondem a 85% das vítimas.

 

Rio de Janeiro

  • Enquanto a narrativa dos “narcoterroristas” legitima a lógica do confronto, o estado contabilizou 800 mortes provocadas por agentes públicos de segurança em 2025, incluindo duas vítimas com idade entre 0 e 11 anos. Houve um aumento de 13,8% em relação ao ano anterior.
  • Mais da metade das mortes por intervenção policial (56,3%) ocorreu na capital.
  • Pessoas negras representam 57,8% da população, mas correspondem a 89,5% das vítimas.
  • A taxa de letalidade policial foi de 6,3 mortes por 100 mil habitantes negros, contra 1,1 entre brancos, o que significa que o risco de uma pessoa negra ser morta pela polícia do Estado é seis vezes maior do que o de uma pessoa branca.

 

São Paulo

  • Atingiu o recorde de 834 mortes registradas em 2025, uma alta de 2,7% em relação ao ano anterior.
  • Aumento ocorreu mesmo em um contexto de queda de crimes relevantes, como furtos, roubos e latrocínios, sugerindo que a elevação da letalidade não acompanha necessariamente a dinâmica criminal, mas reflete escolhas na condução da política de guerra de segurança pública.
  • Capital concentrou 30,5% das ocorrências.
  • Pessoas negras representam 40,9% da população paulista, mas correspondem a 64,6% das vítimas fatais da ação policial.

 

Por Luis Felipe Azevedo — Rio de Janeiro / O GLOBO

Foto: Divulgação/PMERJ

 

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