
O ritmo lento do Congresso Nacional nas últimas semanas não é apenas fruto da distração coletiva com a Copa do Mundo e os festejos de São João. Por trás da aparente calmaria legislativa, os presidentes da Câmara e do Senado manobram em silêncio para pavimentar o caminho de suas reeleições. As articulações do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), os colocaram em lados opostos nas votações que interessam tanto ao governo quanto à oposição.
Motta tem colhido os frutos de seu alinhamento com o Palácio do Planalto. O presidente da Câmara destravou uma série de matérias prioritárias para o governo Lula entre os deputados, garantindo avanços em projetos de infraestrutura e regulação econômica. Contudo, ao chegarem ao Senado, essas mesmas propostas esbarram na frieza calculada de Alcolumbre. A relação entre o senador do Amapá e o Executivo federal se deteriorou nas últimas semanas, e o resultado prático é um engarrafamento silencioso que mantém a pauta trancada na gaveta.
A estratégia não é apenas pessoal, mas fisiológica. Ambos os comandantes do Legislativo utilizam o esvaziamento do noticiário político típico do período de festas e futebol para operar suas campanhas internas longe dos holofotes. As negociações sobre as presidências da Câmara e do Senado para o próximo biênio já estão em curso, e cada voto no plenário de uma das Casas pode fortalecer ou enfraquecer as respectivas candidaturas. O impasse funciona como uma cortina de fumaça: adia-se a votação para não se criar desgaste público entre os dois caciques e, ao mesmo tempo, evita-se que a base governista ou a oposição capitalizem vitórias antes das eleições internas.
A urgência do Palácio do Planalto em aprovar o pacote de concessões de ferrovias e a reestruturação de programas sociais contrasta com a paciência estratégica dos presidentes das Casas. Motta sabe que depende do apoio do governo e de uma base sólida entre os deputados para se reeleger. Alcolumbre, por sua vez, precisa consolidar o apoio de senadores independentes e de alas do centrão que veem com desconfiança a aproximação entre o governo e o presidente da Câmara. É nesse pêndulo de interesses que as matérias do Executivo ficam retidas, aguardando um desfecho que não depende de mérito legislativo, mas de acertos de cúpula.
A oposição, que também pressiona por votações sobre segurança pública e pautas de costumes, encontra o mesmo muro. Seus projetos são barrados tanto pela base governista na Câmara quanto pelo ritmo próprio do Senado, que Alcolumbre controla com mão de ferro. A Copa do Mundo forneceu o álibi perfeito: com as sessões esvaziadas e o quórum baixo, as votações de impacto foram sendo adiadas semana após semana, enquanto as negociações de bastidores avançavam sem a interferência da opinião pública ou da imprensa.
Nos corredores do Congresso, a leitura predominante entre assessores e parlamentares é de que o verdadeiro recesso já começou, ainda que informalmente. As festas de São João no Nordeste e as celebrações ligadas ao futebol justificam ausências em série, mas o movimento é orquestrado. A base de Motta não se opõe porque deseja que ele continue comandando a Câmara; os aliados de Alcolumbre tampouco reclamam, pois a sobrevida do atual presidente do Senado interessa a quem construiu pontes com ele. O resultado é um acordo de cavalheiros que mantém o plenário morno enquanto as panelas políticas fervem nos gabinetes.
O presidente da Câmara tem se aproximado cada vez mais do Palácio do Planalto, participando de cerimônias e articulando com ministros. Esse movimento, embora lhe garanta musculatura entre os deputados governistas, é visto com reservas por setores do Senado que acusam Motta de querer impor uma agenda subserviente ao Executivo. Alcolumbre explora essa desconfiança para se colocar como fiador da independência do Senado, um discurso que ecoa bem entre os senadores mais ciosos de seu poder e que ele usa como moeda de troca nas conversas sobre a própria reeleição.
O Conselho de Ética da Câmara e as comissões especiais, que deveriam estar analisando medidas provisórias e projetos de lei complementar, tiveram suas atividades reduzidas ao mínimo. As convocações para sessões deliberativas são feitas de forma protocolar, sem expectativa real de deliberação. É uma coreografia política que mantém as aparências de funcionamento institucional enquanto o que realmente importa as costuras pelo poder acontece em almoços, jantares e reuniões reservadas nos apartamentos funcionais de Brasília.
Um dos principais pontos de tensão entre os dois presidentes é a crescente influência do governo sobre Motta. O Palácio do Planalto vê no presidente da Câmara um aliado confiável para aprovar matérias de impacto fiscal e social antes das eleições de 2026. Já Alcolumbre, que ainda busca o equilíbrio entre ser um parceiro viável do governo e manter sua autoridade entre os pares, tem sido mais parcimonioso e, por vezes, abertamente resistente. Esse jogo duplo atrasa a tramitação de propostas que poderiam dar musculatura eleitoral ao governo, o que, do ponto de vista da oposição, é uma vitória tática temporária, ainda que não declarada.
A paralisia também afeta a pauta da oposição. Projetos sobre o marco temporal das terras indígenas e sobre a flexibilização do porte de armas, bandeiras caras ao bolsonarismo e a setores conservadores, ficam igualmente represados. O governo não tem pressa para votá-los, e Alcolumbre, focado em sua própria sobrevivência política, não vê vantagem em desgastar-se com temas divisivos. A polarização que marcou os últimos anos cedeu lugar, neste momento, a um acordo tácito de não-agressão entre as duas principais forças do Congresso, cada uma cuidando de seus interesses sucessórios.
O calendário não perdoa. As convenções partidárias que definirão os candidatos às mesas diretoras se aproximam, e tanto Motta quanto Alcolumbre sabem que precisarão apresentar resultados concretos para justificar suas permanências. O impasse atual é, portanto, um jogo de alto risco: se a paralisia se estender demais, o custo político será cobrado pelo eleitorado e pelos próprios pares. Mas se algum dos dois ceder antes da hora e pautar votações que prejudiquem sua imagem interna, a reeleição pode escorregar. A Copa e as festas juninas deram a desculpa perfeita para empurrar a decisão alguns dias mais, enquanto os cálculos são refinados a portas fechadas.
A governabilidade do país, nesse ínterim, fica em stand-by. Projetos sobre mobilidade urbana, saneamento básico e reajustes salariais de servidores aguardam a boa vontade de dois homens cujos olhos estão mais voltados para as urnas internas do Congresso do que para o plenário. O Brasil real, com suas demandas e urgências, permanece refém de um recesso que não está no calendário oficial, mas que é tão efetivo quanto qualquer feriado nacional. A disputa silenciosa entre Motta e Alcolumbre pelo comando do Legislativo transformou o Parlamento em um tabuleiro onde cada lance é medido não pelo mérito das leis, mas pelo impacto nas próprias carreiras.
Por Fonte 83
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