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Como campanha de Lula mudou rota no 2º turno e conseguiu virada inédita

Após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficar atrás de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da disputa presidencial, a campanha petista recalculou a rota para o segundo turno.

Entre as mudanças, montou uma sala de situação no QG em Brasília, liderada pelo secretário de Organização do PT, Laércio Ribeiro de Oliveira.

O grupo, que também tinha entre os coordenadores o senador Camilo Santana (PT-CE) e o presidente do PT, Edinho Silva, além de uma equipe técnica, passou a analisar dados para definir estratégias específicas por região.

O objetivo era identificar onde a campanha deveria trabalhar para aumentar a rejeição a Flávio Bolsonaro, onde deveria intensificar mensagens positivas e a mobilização por Lula e onde uma atuação mais intensa poderia acabar mobilizando eleitores do adversário.

Em uma virada inédita, Lula venceu o segundo turno e foi reeleito com 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio.

Laércio Oliveira explica que, no primeiro turno, a campanha de Lula se organizou com o que tinham de experiência exitosa de 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro.

Nessa primeira fase da campanha, a coordenação focou na montagem dos comitês de campanha e populares, com movimentos sociais, sindicatos e partidos da base.

"Somado a isso, a gente tinha a organização do Pode Espalhar, que era uma coisa montada em 2022, aprimorada um pouco, mas era orgânico, alcançava mais a militância. Tivemos o Porta-voz do presidente Lula, sob a coordenação do Boulos, para tentar ampliar o simpatizante que não era do PT, mas que era progressista, mas, na prática, esse engajamento só aconteceu no segundo turno com [André] Janones, que extrapolou a bolha", disse o secretário.

A sala de situação foi montada em 5 de outubro, um dia depois da eleição do primeiro turno, e era composta por seis integrantes na sala física e mais dez na central de relacionamento virtual com pessoas de diferentes estados.

Também houve mudança na coordenação nacional da campanha, com a entrada de três políticos nordestinos para tentar mudar os rumos das eleições no segundo turno:

 

  • O senador Camilo Santana (PT-CE), ex-ministro da Educação e ex-governador do Ceará, como coordenador político;
  • o senador eleito Rui Costa (PT-BA), ex-ministro da Casa Civil e ex-governador da Bahia, na coordenação da agenda;
  • e Rafael Fonteles (PT-PI), governador reeleito do Piauí, na coordenação da comunicação.

 

A partir daí, a campanha passou a destrinchar os dados disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral.

As análises buscavam identificar onde havia maior capacidade de mobilização com mensagens positivas, onde estava a maior concentração de eleitores de Lula, onde era preciso mobilizar quem havia se abstido e onde seria possível atuar para aumentar a rejeição ao adversário e desmobilizar o voto do outro lado.

A campanha também disponibilizava materiais separados por temas e objetivos de comunicação.

Nos locais em que a meta era ampliar a rejeição ao adversário, havia conteúdos específicos para essa finalidade. Onde a prioridade era aumentar a mobilização em torno de Lula, a orientação era usar mensagens mais positivas, com foco no futuro, por exemplo.

 

"Se você olhar o resultado do Brasil inteiro, o que mais surtiu efeito foi a redução da abstenção e o eleitor que voltou para a urna, não tinha ido no primeiro turno, foi para a urna ou que mesmo não tinha votado em 2022. Isso foi o que mais surtiu efeito, mas tem esse eleitor da terceira via, que foi para ele (Lula). São quase 10 milhões de votos, né?", disse Laércio.

 

Paralelamente a isso, o presidente Lula se aproximou de jovens eleitos no primeiro turno e foi convencido por Fonteles da importância de ter uma comunicação direta com os eleitores nas redes sociais.

Lula passou a gravar vídeos para as diferentes plataformas digitais, e a campanha começou a adotar a estratégia de mostrá-lo como estadista, como em vídeos direcionados a Minas Gerais, São Paulo e Pernambuco.

Junto aos movimentos das ruas e a presença de Lula nas redes sociais, foi se intensificando também a mobilização digital realizada pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), com um estilo combativo que até então provocava resistência em setores do PT.

O deputado comandou o canal de WhatsApp "Exército do Lula", com 10,5 milhões de seguidores, e ensinou como usar os algoritmos para virar a eleição.

Para Laércio de Oliveira, a lição que as eleições deste ano deixa é que o modelo de organização e de fazer campanha tradicionais continuam tendo alguma importância, mas são insuficientes para ganhar uma disputa.

 

"Esse segundo turno mostrou que é preciso ter criatividade, que tem que falar de forma direta com a massa. Não tem mais intermediário. Você fala com o sindicato, o sindicato reproduz essa relação com os seus trabalhadores. Você fala com movimento social organizado, o movimento social organizado reproduz isso. Eu acho que a sociedade está mudando nesse sentido, está perdendo os intermediários", disse.

 

"Não significa que isso deixa de ter importância porque voocê organiza a luta, organiza a partir disso, as suas pautas, mas isso é insuficiente hoje para você falar com o povo, falar com a massa."

 

Por Isabella Calzolari, g1 — Brasília

 

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