Perigo de extinção: abate de 60 mil jumentos por ano ameaça espécie

O aumento do abate de jumentos no Nordeste brasileiro trouxe a seguinte dúvida: a espécie pode desaparecer em poucos anos se o ritmo atual continuar?

A principal pressão para o abate do animal vem da demanda internacional por peles usadas na produção do ejiao, um produto da medicina tradicional chinesa. Feito a partir da gelatina extraída da pele do animal, o produto movimenta um mercado que exige milhões de peles por ano.

Como a China já não possui animais suficientes para atender a essa demanda, a busca se expandiu para países da África e da América Latina, incluindo o Brasil.

 

Abate de jumentos ameaça população animal

No país, a exploração ocorre sem um sistema estruturado de criação que garanta a reposição dos animais abatidos. Isso significa que o abate depende basicamente do rebanho já existente — que vem diminuindo ao longo dos anos.

Segundo o médico-veterinário José Roberto Pinho de Andrade Lima, do Conselho Regional de Medicina Veterinária da Bahia (CRMV-BA), esse é um dos principais pontos de preocupação.

 

“Não existe sistema de produção de jumentos no país, portanto não há reposição dos animais abatidos. A redução populacional já é significativa e ocorre de forma acelerada com o abate de 60 mil jumentos por ano. O rebanho passou de 700 mil há algumas décadas e hoje é estimado em menos de 150 mil”, diz.

 

Além da retirada constante de animais, a própria biologia da espécie dificulta a recuperação. A gestação dura cerca de um ano, normalmente nasce apenas um filhote por vez e o intervalo entre partos pode chegar a dois anos, o que torna a reposição naturalmente lenta.

Mesmo sem dados totalmente atualizados, análises que cruzam informações do censo agropecuário com registros de abate indicam uma queda acelerada da população animal.

De acordo com o representante do CRMV-BA, o ritmo atual de exploração pode levar a um cenário crítico em pouco tempo. “A população está caindo rapidamente, tendendo à extinção em poucos anos ou meses”, alerta.

 

Falta de controle sanitário e riscos

FreepikFoto colorida de jumento - Metrópoles
Queda no número de jumentos no Nordeste acende alerta para risco de extinção

 

Além da redução populacional, há preocupação com a forma como o abate é realizado. A ausência de controle sanitário e de rastreabilidade dos animais levanta riscos tanto para a saúde animal quanto para a saúde pública.

 

Segundo José Roberto, muitos jumentos chegam aos frigoríficos sem histórico veterinário ou exames obrigatórios. “Não existe qualquer controle sanitário e rastreabilidade dos animais que chegam aos frigoríficos”, afirma.

 

Esse cenário facilita a disseminação de doenças entre animais e também pode expor trabalhadores a riscos. Um exemplo é o mormo, doença infecciosa grave e crônica que pode ser transmitida para humanos por meio do contato com secreções, causada pela bactéria Burkholderia mallei, que afeta principalmente equídeos (cavalos, mulas, burros).

O jumento nordestino é resultado de séculos de adaptação ao clima seco e às condições adversas do semiárido brasileiro. De acordo com a professora especialista em Conservação e Uso de Recursos Genéticos Animais, Connie McManus, da Universidade de Brasília (UnB), esses animais possuem uma capacidade incomum de sobreviver com poucos recursos.

 

“O jumento nordestino é extremamente eficiente na utilização de água e de vegetação de baixa qualidade. Essa adaptação permite que o animal desempenhe funções importantes em regiões onde outras espécies teriam dificuldade de sobreviver, ” explica Connie.

 

De acordo com a especialista, os jumentos possuem resistência térmica e metabólica muito grande, conseguindo viver onde outros animais não conseguem. Além disso, a pesquisadora destaca que o desaparecimento desses animais representa também uma perda genética relevante.

 

“Quando perdemos populações locais adaptadas, perdemos um recurso genético importante para o futuro”, diz.

 

Os jumentos também exercem funções importantes no ambiente. Ao se alimentarem, ajudam na dispersão de sementes e no controle da vegetação, contribuindo para a dinâmica do bioma da Caatinga.

A circulação desses animais por grandes áreas também favorece a conectividade ecológica. Com a redução da população, essas interações tendem a diminuir, o que pode provocar mudanças na estrutura do ecossistema.

 

Sem jumento, não há mula

A queda no número de jumentos também tem impacto direto na economia rural. O animal é essencial para a produção da mula, utilizada em diversas atividades agropecuárias.

Mesmo com a modernização do campo, esses animais continuam sendo fundamentais em regiões onde a mecanização é limitada, como áreas do Pantanal, da Caatinga e do Cerrado.

Eles são usados no manejo de rebanhos, no transporte e no acesso a áreas de difícil locomoção, muitas vezes com custo inferior ao de veículos motorizados.

 

Símbolo cultural do sertão

Historicamente, os jumentos tiveram papel central na vida do semiárido. Foram essenciais para o transporte de água, alimentos e mercadorias, além de apoiar a agricultura familiar.

FreepikFoto de jumento - Metrópoles
Sem reposição e pressionados pelo abate, jumentos podem desaparecer do Brasil

 

Ao longo do tempo, tornaram-se um símbolo do sertão, presentes na cultura popular, na música e na literatura nordestina. A possível perda desses animais representa, portanto, não apenas um impacto ambiental e econômico, mas também cultural.

Diante do cenário, cresce a defesa por medidas mais rigorosas para proteger a espécie. Entre as propostas estão o controle populacional, o incentivo à reprodução e a valorização econômica do animal em outras atividades.

 

Para o CRMV-BA, a principal ação deveria ser imediata. “O primeiro ponto seria a interrupção imediata do abate”, afirma José Roberto.

 

A partir disso, o caminho seria investir em pesquisa, conservação e alternativas sustentáveis de uso, garantindo que o jumento continue presente tanto no ambiente quanto na cultura do Nordeste.

 

 / metropoles.com

 

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